sábado, 25 de abril de 2009
Quase Curitibanos
Dizem nos meios culturais que curitibano é muito crítico e culto. No meio econômico, bem-sucedidos. Na sociedade passam por antipáticos, mas vão de elegantes e discretos sutilmente, como manda a etiqueta. Não é suficiente?
Os curitibanos ainda moram em uma cidade bem estruturada, limpa, com muito verde, segura e sem trânsito. A publicidade conseguiu captar bem o sentimento curitibano e expandi-lo ao ponto de se tornar uma cidade-desejo. Isto não é consequência isoladamente política. Foram os moradores que ajudaram a vender a imagem de capital ecológica, de um ótimo lugar para viver. Ganhou prestígio e hoje colhe os frutos a contragosto de quem tem registrado no local de nascimento: Curitiba, Paraná.
Segundo pesquisas realizadas pelo Paraná Pesquisas sobre a população da cidade, 48% dos moradores são nascidos em Curitiba, 35% vieram do interior do estado do Paraná e 17% de outros estados. As porcentagens deixam claro que as pessoas acreditaram na imagem vendida, de que a capital cresceu economicamente, que tem importância em alguns setores do mercado brasileiro e que é um ponto turístico como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte.
A pergunta é se temos de fato tudo isso para oferecer. O que aconteceu e onde foram parar todos esses atributos? Hoje não são só curitibanos na capital e muitos não conseguem dar os próprios passos. De nada adianta ensinar a levantar, andar, se não se ensina a permanecer de pé. Os migrantes chegaram, aprenderam como tudo funciona, viraram os novos curitibanos e se dividem nos que alcançaram seu objetivo, e já pedem um café com “leite quente”, adoçado com sotaque, e os que ainda correm para ter o sonho curitibano.
Para reconhecer um típico curitibano é só entrar no elevador, cumprimentar discretamente quem está pegando carona e esperar três reações básicas: o silêncio que permite ouvir os cabos que impulsionam o elevador, uma tentativa de comunicação iniciada pela mudança de clima, ou uma cara séria fazendo ar de educada e perguntando em que andar você vai.
Já reparou que algumas vezes nos pontos de ônibus trocamos informações sobre o destino do ônibus, se ele jà passou, qual o horário e nem sabemos de onde veio a pessoa que responde a todas essas perguntas? Não permitimos uma conversa, alguma demonstração de sentimento, nada. Mantemos o famoso ar blasé que nos torna frios.
O problema da atual Curitiba não é a estrutura e nem o conjunto de “defeitos” que qualquer capital possui. A minoria que alcançou o seu objetivo fica e ganha jeitos e trejeitos dos antigos curitibanos, resultando numa extinção de muitas vozes. Talvez a gota d’água resida na forma como recebemos os migrantes que ajudam a cidade. Só aceitamos aqueles que podem retribuir muito bem o que teoricamente damos a eles. Não queremos que a cidade perca seu título de cidade modelo, mas permitimos que a cidade transborde insensatez e seque de sentimentos.
* TEXTO PUBLICADO NO JORNAL LABORATORIO COMUNICARE PUC-PR EM ABRIL 2009.*
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Dei um beijo de despedida nela e um em seu filho, fui embora feliz, subi a rua pensando em quantas vezes eu já tinha feito aquele mesmo percurso, em quantas conversas naquela rua eu tive com ela que sempre esteve ali, cercada por uma muralha que guardava o desejo de amar alguém que não a abandone.
Pensei em outra pessoa, que paralelamente a mim e a ela, está seguindo atrás de um sonho do qual nunca desistiu...amar e ser amada por completo por alguém que aceite seus defeitos, suas buscas e anseios. E a última notícia que tive, foi que ela estava perto de conseguir.
De repente senti um vazio, daqueles que não se explica. Simplesmente vazio.
Ao contrário da pessoa em quem eu pensei, não esboço nenhuma forma de emoção sobre o que acontece, o que penso e sinto. Me sinto anestesiada de qualquer sentimento. Aquilo que nos difere dos animais tem sido meu escudo diário, a racionalidade. E ela tem me feito acreditar que cumpri minha missão com relação às duas pessoas que falei aqui.
Nos poucos momentos em que a anestesia perde seu efeito, me sinto feliz por ter ajudado da maneira que pude a trazer uma nova vida, e isso em todos os sentidos, para ela que hoje ama sem medo de ser abandonada e que percebe que amar nos torna humanos. E o amor que ela possui e dá à alguém tão pequeno e cativante é incondicional.
Ainda quando sinto algo, penso que por algum motivo aquela que sonhou em amar e ser amada, aparentemente consegue alcança-lo mesmo que ele não seja eterno, mas no presente é o que se necessita e a satisfação a torna feliz, ou ao menos algo perto disso. Me sinto contente por saber que tudo está ficando como o desejo que se teve, volto a ficar anestesiada entendendo uma fala do filme Cazuza- o tempo não pára : " sorte é abandonar essa vaga idéia de paraíso, bonita e breve..."
E sigo abandonando a minha vaga idéia de paraíso, " porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei..."
