quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Por que não?

Estava parada em um dos sinaleiros de Curitiba, voltando para a casa quando tudo aconteceu.
Como é de costume na cidade fazia muito frio e chovia, mas aquela noite estava especialmente gelada e todos vestiam gorros, cachecóis, luvas e casacos para se esquentarem ou amenizarem a baixa temperatura. Menos aquela pessoa que estava na esquina se assegurando que podia atravessar.
Enquanto esperava o sinal verde prestei a atenção nela que vestia apenas um tênis, calça de moletom vermelha, casaquinho azul também de moletom e uma bolsa de pano a tira colo. Suas roupas meio surradas davam a impressão de velhas e nem de longe eram o suficiente para tanto frio.
Quando estava na metade da faixa de pedestres olhou para o lado e veio em minha direção sorrindo, como quem pedisse um minuto da minha atenção, e enquanto se aproximava estendeu a mão dizendo que não era ladrão.
Então confirmei minhas suspeitas de que apesar dos trajes e do cabelo não se tratava de uma mulher, mas sim de um gay com trejeitos, traços muito fortes, com uma aparência sofrida e pobre.
Eu estava com uma fresta da janela aberta para a fumaça do cigarro dispersar, olhei para o lado e ele estava ali.

- Desculpa, eu não sou ladrão - reforçou talvez para que eu não me sentisse ameaçada - eu só gostaria de pedir, se você tiver, um e dez para completar a passagem do ônibus.
Mesmo achando que não tinha moedas por perto para ajudá-lo procurei no console, enquanto isso ele me olhava atentamente e observou:

- Que lindo cabelo.

Sorri agradecendo o elogio e lhe disse que tinha apenas quinze centavos para colaborar.
O ar quente que estava ligado dentro do carro chegou até ele e sentindo muito frio ao ponto de tremer disse:

- Tá quentinho aí dentro... que delícia.
Senti um pouco de pena dele e lhe entreguei as moedas. Ao pegá-las ele agradeceu:

- Agora só falta noventa e cinco centavos ... cada um tem o que merece, e você com certeza deve merecer " tá aí" no carro. Disse como se ele mesmo já estivesse convencido de que não era merecedor.

Aquela situação não sei exatamente por qual motivo me comoveu. Por que ele também não merecia? A situação para ele realmente não era boa eu sei, mas quem disse que isso era uma justificativa ? Talvez as condições em que ele nasceu, viveu e ainda viva não o levem a crer que pode alcançar o que deseja. Então tentando consolar e tornar aquele momento menos triste e constrangedor respondi :

- Você também merece...é só acreditar que um dia acontece.

Com um olhar emocionado de quem jamais esperou ouvir aquilo de uma estranha agradeceu com a voz embargada, e eu reforcei a idéia.

O sinaleiro abriu e fomos embora cada um para o seu lado.